A Intertextualidade entre Dom Casmurro e Othelo

 

        A intertextualidade entre o livro Dom Casmurro e a peça Othelo pode ser justificada através de seu tema mais evidente, o ciúme, que é o sentimento que gira em torno dos personagens fazendo as duas obras acontecerem.

 

  

                                       Dom Casmurro                           Othelo

     

    Enquanto Bentinho opta por uma reconstrução imaginária do passado, Othelo deixa-se conduzir por Iago, que forja as provas contra Desdêmona, incriminando-a. As desconfianças que movem Bentinho são internas, vem de sua imaginação, porém as do Mouro, são manipuladas pelo perspicaz Iago, que ambiciona sua posição. Bentinho é seu próprio sabotador, está convicto da traição independente das evidências, mesmo confessando sutilmente acreditar na inocência de Capitu, quando cita a obra de Shakespeare, chegando a assistir a encenação no auge de seu delírio, prefere culpar sua esposa conduzindo o leitor para uma irremediável condenação. Bentinho assume a função de Iago em si mesmo.

 

 

 Podemos encontrar a raiz de toda a tragédia nos perfis psicológicos destes personagens. O Mouro é apresentado com um oficial importante da república de Veneza enquanto Bentinho é um jovem seminarista promissor da sociedade burguesa carioca. No entanto, suas inseguranças os impossibilitavam viver a plenitude do amor. Othelo tinha sua auto-imagem deteriorada; por ser negro, já trazia sobre si o preconceito de ser casado com uma branca. A sociedade respeitava-o na figura de general, mas não via-o integrado nos seus costumes. Iago investiu não somente nesta carência evidente de Othelo, que por algumas vezes deixava-o atingir fisicamente (tendo crises epiléticas), mas também se valia de sua plena confiança de amizade. Othelo prefere acreditar na figura masculina de Iago ao invés da feminina de sua própria esposa Desdêmona. Diante deste panorama, podemos também apontar como um dos motivos do trágico desfecho, a carga machista impregnada na sociedade quinhentista.

 

 

Bentinho, vivendo séculos após a tragédia de Shakespeare, também reflete desajuste social, se descrevendo como um sujeito manipulado sem decisões próprias. Fruto da autoridade de sua mãe e da acomodação burguesa vê em Capitu uma figura maior do que ele próprio, tanto em exuberância quanto em firmeza de atitude. Seu confinamento no seminário aflorou ainda mais suas desconfianças. Distante da amada, agora somente forjando sua imagem através das especulações de José Dias, antevia situações de adultério, num território idealizado, porém o único que restava para quem cumpria um destino contrariado.

 Na verdade, seus pensamentos eram mais fortes que a realidade, pois brotavam num território incensurável, tão intenso quanto às renúncias que até então decidiam o rumo e sua vida. Apesar de Capitu ser o motivo maior de seus pensamentos, ela foi vítima de uma imaginação conturbada e masoquista, obstinada a traçar a própria desgraça. Bentinho prefere calar Capitu ao longo do romance e ainda assim consegue atribuir a ela um caráter oblíquo.  

 

  

 

Ambos viram como solução para a enganosa infidelidade a morte de suas esposas. Othelo, em sua personalidade mais sanguinária, parte para o ato evidente, estrangulando Desdêmona, reparando sua honra numa atitude movida pela emoção e insanidade. Já Bentinho, um homem que prezava pelas convenções sociais, buscou uma solução mais racional, embora tanto quanto covarde, em ignorar Capitu, retirando-a aos poucos de seu convívio. O assassinato pode ser entendido na própria narrativa, onde Dom Casmurro, quase que por descuido, deixa escapar que ela morreu na Europa, sem uma observação mais relevante, distante dele e já há muito de seu coração. 

 

 

 Machado de Assis conduz sua exposição dos fatos não só consciente da sombra que Othelo representaria e o eco que reproduziria em sua obra com a temática recorrente, como consegue ir além, desafiando as evidências que caracterizam uma traição. É de conhecimento geral que o romance machadiano não deixa implícito se Capitu traiu ou não Bentinho, porém a voz do narrador produz com suas palavras, defesa as suposições de Bentinho. 

 

 

 

 Em Othelo, Shakespeare apresenta personagens com intensa força interior, possibilitando inúmeros desfechos, mesmo manifestando claramente, ao longo das peripécias, a sua sentença trágica. Por mais que Othelo opte em ratificar as suposições de Iago, ele cumpre a função de qualquer outro elemento interno da ação, não tem voz independente. Diferentemente, Bentinho discursa fora dos acontecimentos, com uma visão global da realidade, o que o possibilita figurá-la através de seu ponto de vista. Othelo poderia não ter dado crédito a Iago e escolher viver feliz ao lado de Desdêmona, porém Shakespeare preferiu discutir sobre a indomável paixão humana, cujo ciúme consegue ser maior que o indivíduo. Já Dom Casmurro tinha o poder da opção na condição de narrador onisciente. Escolhe não absolver Capitu, prefere o ressentimento, empenha-se numa sucessão de desfechos fúteis para fortificar cada vez mais as suas verdades e sua visão de mundo.

 

 

 

Não seria certo dizer que Bentinho é uma repetição ou mesmo alusão à identidade de Othelo, porém ambos representam aquilo que a alma humana é capaz quando se depara com situações ameaçadoras. Agindo violentamente, como Othelo ou calculadamente como Bentinho, o indivíduo fica impassível diante da traição, da vergonha e do silêncio das convenções. Othelo nos apresenta o ponto de partida para os mistérios da alma numa vivência virgem em causa e efeito, já Bentinho se vale da experiência vivida pelo mouro e racionaliza suas conclusões. As convicções que movem os dois protagonistas em escolher seus destinos são tão preconceituosas quanto a forma como entendem o papel da mulher na sociedade e sua dimensão do real.

A força que move suas atitudes não se contrapõe nem desmerece uma a outra. Othelo e Bentinho são registros de desejos intensos, personagens únicos, ricos em nuances e repletos de humanidade. 

 

 

 

 


Fonte:http://www.autores.com.br/2009051218388/Literatura/Ensaios/a-intertextualidade-entre-os-personagens-otelo-shakespeare-e-bentinho-dom-casmurro.html

 

E para saber mais sobre o assunto acesse:

http://www.filologia.org.br/LINGUAGEMEMREVISTA/01/05.HTM